Raízes pouco conhecidas do liberalismo democrático
Protágoras, Spinoza e Jefferson são as três fontes principais.
Francis Fukuyama, em conversa com Yascha Mounk, publicada no substack Yascha Mounk no dia 1 de agosto de 2026, disse uma coisa interessante. Uma coisa que estamos repetindo há anos, mas os liberais modernos parecem não querer ouvir.
Eis o que ele disse:
“Existe uma concepção de liberalismo com raízes muito antigas, bem anteriores à Revolução Americana, que afirma que a liberdade não é puramente individual. Não se trata simplesmente da minha capacidade de escolher minha profissão, meu cônjuge, onde moro — trata-se também de poder participar do autogoverno coletivo e de poder participar politicamente para tomar as grandes decisões para a comunidade como um todo... Acho que isso sempre foi um componente importante do que entendemos pela parte liberal do liberalismo — bem, pela parte democrática também. Significa exercer autonomia em todos os níveis”.
E o que estamos dizendo?
Que o liberalismo democrático começa com os atenienses (muito provavelmente com alguns sofistas) quando compreenderam que o sentido da política é a liberdade (e não a ordem). Em resumo, os democratas atenienses pensavam que ninguém pode ser livre sozinho (ou seja, que a minha liberdade começa quando começa a sua liberdade, não quando ela termina). Mas liberdade, para eles, era interagir na polis, ou seja, não era se livrar da opressão de outrem (o que seria mais libertação) e sim se comprazer na convivência com o outro na comunidade (koinonia) política. Daí que, para eles, se você fizesse uma viagem longa, se afastando da polis, perdia também a liberdade.
Então, para os democratas radicais, há um novo tipo de liberalismo que não tem nada a ver com as ideologias economicistas do liberalismo-econômico (do tipo da Escola Austríaca, por exemplo), nem mesmo apenas com o liberalismo político dos modernos, como Locke, Constant, Tocqueville, Mill. Tem mais a ver, na modernidade, com Spinoza e Jefferson. E, muito antes, na antiguidade, com os democratas atenienses (como Clístenes, Efialtes, Péricles, Aspasia), sobretudo com alguns sofistas (como Protágoras).
Protágoras (c. 440 a.C.)
Vamos começar por ordem de antiguidade. Embora não tenham sobrado escritos íntegros de Protágoras (assim como de quase nenhum sofista), todas as referências diretas e indiretas sobre sua vida e sua obra, sobretudo sobre seus escritos, para os que os conheceram antes de serem desqualificadas pela maledicência de Platão e de sumirem na doxografia aristotélica, apontam para o que vamos expor resumidamente mais adiante. Sobre isso, o erudito George Briscoe Kerferd (1981), em O Movimento Sofista, escreveu:
“Um número considerável de escritos [dos sofistas] sobreviveu por um bom tempo. No que os sofistas foram menos afortunados do que outros, entre os pré-socráticos, foi na virtual ausência de relatos doxográficos. Provavelmente a principal razão disso foi a sua rejeição, como pensadores, por Aristóteles. Isso significa que foram virtualmente excluídos da série de sínteses encomendadas à escola de Aristóteles, que foi uma importante fonte de informação subsequente… A geral omissão deles na tradição doxográfica, unida à opinião platônica e aristotélica de que seu pensamento e seu ensino eram falsos, explica por que foram, de fato, virtualmente ignorados pela cultura helênica…”
Um dos cancelados - senão o principal - foi, certamente, Protágoras. O burocrata bibliotecômono Teofrasto (sucessor de Aristóteles) talvez tenha completado a obra de fazer sumir seus escritos. Não se sabe ao certo. O que se sabe é que (quase) tudo desapareceu.
Embora o termo “liberalismo” seja uma construção da modernidade, muitas fontes indicam que Protágoras pode ser considerado um precursor do liberalismo democrático ou um liberal radical no sentido original do termo. Ele estabeleceu as bases para uma política onde a liberdade é o sentido central da convivência. Eis alguns indícios fundamentais que sustentam essa perspectiva:
A famosa máxima de Protágoras — “o homem é a medida de todas as coisas” — pode ser interpretada como um marco da autonomia individual. Ao contrário das filosofias que buscavam uma verdade absoluta e transcendente para governar os homens (como a de Platão), Protágoras “lançou a verdade à terra”, fundamentando-a na experiência e no julgamento de cada indivíduo. Isso sugere uma confiança na capacidade humana de se autogovernar sem a necessidade de pastores ou mestres divinos.
Protágoras defendia que a “arte política” não era um saber técnico reservado a especialistas, mas uma qualidade que Zeus distribuiu a todos os homens. Segundo o seu mito, a sobrevivência social depende do respeito mútuo (aidos) e da justiça (dike), que devem ser compartilhados por todos os cidadãos. I.F. Stone (1988), em O Julgamento de Sócrates, observa que esse mito fornece o “alicerce filosófico para o direito ao autogoverno”, uma ideia liberal central de que o poder legítimo deriva do consentimento e da participação de qualquer um.
Para Protágoras, a ordem social é construída de baixo para cima através do debate público e da persuasão, e não imposta por uma autoridade superior.
Como já sustentei em outros escritos, Protágoras e os demais sofistas foram os primeiros a experimentar a democracia como um modo de vida focado na “convivedoria”, onde a liberdade consiste em interagir na comunidade política.
Protágoras reabilitou a “opinião” (doxa) como um critério válido para a política, permitindo que a realidade social fosse moldada por múltiplos pontos de vista. E não subordinava a doxa à episteme ou à techné no que tange à discussão e deliberação sobre os assuntos públicos.
Fique claro que o termo “liberal” é aplicado a toda política que toma a liberdade como seu sentido. Como Protágoras via a polis como um espaço para a fruição da liberdade e para o exercício da autonomia pessoal em conjunto com os outros, ele se encaixa nessa tradição que rejeita a ordem ou a segurança como objetivos primários.
Spinoza (1670)
O centro do pensamento político de Baruch de Spinoza está no famoso capítulo XX do seu Tratado Teológico-Político (1670), escrito cerca de vinte anos antes de John Locke publicar sua Carta sobre a Tolerância (1689). No meu livro mais recente, Como as democracias nascem (2023), tentei realçar a contribuição de Spinoza como um dos fundadores do liberalismo moderno.
Podemos afirmar que Spinoza foi um liberal, mas em um sentido político radical e originário que precede e fundamenta muito do que hoje entendemos por democracia liberal. Dentre os pilares que sustentam o liberalismo de Spinoza, convém destacar que, ao contrário de Thomas Hobbes, que via a ordem e a segurança como a finalidade suprema do Estado, Spinoza defendeu categoricamente que “o verdadeiro fim da república é, de fato, a liberdade”. Para ele, o Estado não existe para transformar seres racionais em autômatos, mas para garantir que mentes e corpos possam exercer suas funções em segurança, permitindo o uso livre da razão.
Outro pilar é a defesa intransigente da liberdade de pensamento. Spinoza é autor da justificativa teórica para a liberdade de expressão: ele argumentava que é impossível tirar aos homens a liberdade de dizerem o que pensam e que tentar suprimi-la é um ato de extrema violência que ameaça a paz da própria república. Spinoza acreditava que o progresso das ciências e das artes só é possível onde o pensamento é livre e sem preconceitos.
Spinoza foi, talvez, o primeiro pensador moderno a recuperar a ideia democrática originária de liberdade dos atenienses como sentido da política. Esse “liberalismo antigo” ou originário foca na autonomia e na interação na comunidade política, diferindo das vertentes puramente economicistas que surgiram séculos depois e antecipando as visões dos liberais modernos que ficaram consagrados como inventores do liberalismo político.
Dois mil anos após o declínio da democracia ateniense, foi Spinoza quem criou a base teórica para a sua reinvenção pelos modernos.
Jefferson (1776)
Já escrevi alguns artigos sobre Thomas Jefferson. Uma nota recente, de setembro de 2025, intitulada Democratas liberais-inovadores, resume meus argumentos principais. Sim, podemos afirmar com segurança que Jefferson foi um liberal, mas com uma ressalva fundamental: o seu liberalismo era radical e indissociável da democracia.
Jefferson personifica a definição mais pura de liberalismo político: aquele que toma a liberdade como a finalidade última da organização social. Na Declaração de Independência, ele cristalizou a ideia de que os homens possuem, dentre seus “direitos inalienáveis”, a liberdade (à qual atribui o mesmo status do que a vida e a busca da felicidade).
Para Jefferson, o governo não é um fim em si, mas um instrumento que deriva seus “justos poderes do consentimento dos governados” para proteger esses direitos.
Diferentemente dos teóricos que priorizavam a “ordem”, Jefferson acreditava na capacidade do ser humano de se autogovernar por meio da razão e do “senso moral”. Ele via o indivíduo como a base da República e defendia que cada pessoa deve ser livre para pensar e ensinar o que quiser (quase que copiando literalmente o que havia escrito Spinoza um século antes). Por isso, considerava a liberdade de imprensa e a tolerância religiosa não apenas desejáveis, mas essenciais (idem).
Jeffferson tinha pavor do governo híper-centralizado. Uma característica marcante do seu liberalismo era a desconfiança profunda em relação ao governo forte. Ele afirmava que “o poder ilimitado está apto a corromper as mentes de quem o possui”. Sua proposta das “repúblicas nos bairros” (wards) - a mais importante de todas, do ponto de vista de um liberalismo democrático-inovador - era uma tentativa liberal de particionar o poder para que o cidadão não fosse apenas um súdito, mas um participante ativo da vida da comunidade política.
Como comecei o artigo já citado acima:
Procurei um democrata entre os líderes da Revolução Francesa e não achei nenhum. Minto. Na verdade, achei um, mas que nem francês era e sim americano: Thomas Jefferson, que foi embaixador na França de 1784 a 1789, tendo presenciado a preparação e o início da revolução. Diz-se que ajudou a redigir a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (que é de 1789). Talvez tenha sido o único democrata no pedaço. Mas na própria América Jefferson estava praticamente sozinho com suas ideias liberais-inovadoras em meio àquela turma de “pais fundadores”.
É bom ler com atenção um livro tardio de John Dewey, que ele escreveu em 1940, quando já tinha 80 anos. Trata-se de "O pensamento vivo de Thomas Jefferson". Dewey fez a apresentação do livro e a seleção dos textos originais. A versão original do livro é "The living thoughts of Thomas Jeffferson, presented by John Dewey" (New York: Longmans, Green and Co., 1940). Fica a dica.






