Uma resposta à audácia do Irã é necessária
Mas a guerra do Irã vai continuar
O fato de Trump e Netanyahu estarem errados no modo como contra-atacaram recentemente o Irã, na guerra que essa autocracia islâmica vem travando desde 1979, não significa que a teocracia iraniana e a ditadura policial-militar do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica estejam certos em algum sentido (qualquer sentido).
Nos dias que correm, para desbloquear o estreito de Ormuz e começar a discutir a paz, o regime iraniano exige “apenas” (num ato de suprema audácia):
1 - Que o tráfego por Ormuz continue sendo diretamente controlado pela Guarda Revolucionária Islâmica.
2 - O levantamento do bloqueio naval americano.
3 - O fim de todas as sanções americanas, inclusive aquelas que impedem a venda de petróleo.
4 - Que os EUA retirem todos os seus navios de guerra do Golfo Pérsico.
5 - Que os EUA abandonem algumas bases militares na região, principalmente no Kuwait.
6 - O descongelamento das dezenas de bilhões de dólares em ativos congelados.
7 - Que Trump pague reparações de guerra (estimadas em várias centenas de bilhões de dólares).
Bem... como dissemos, Trump e Bibi sempre estiveram errados nesta fase mais atual do conflito. Mas aceitar tais exigências do Irã seria uma rendição desonrosa, que humilharia e fragilizaria os EUA (que existem independentemente de Trump) diante do mundo, colocaria Israel em condição vulnerável e, pior, avalizaria a ditadura iraniana como uma potência regional capaz de influir decisivamente nos destinos do Oriente Médio com repercussões negativas para todo o planeta (sobretudo para as democracias liberais).
Parece claro que - mesmo que os Estados Unidos e Israel aceitassem suas exigências descabidas - o Irã não pararia sua guerra. Porque a guerra que o Irã trava não é contra esse ou aquele inimigo circunstancial: é a própria essência da República Islâmica do Irã e da sua apreensão do Islã como uma religião revolucionária.
Quando Khomeini, em 1979, fundou a “SS” chamada IRGC, iniciou uma guerra (um ‘estado de guerra’) permanente. A autocracia iraniana não faz guerra: ela é a guerra! O Irã manteve essa guerra viva por meio de cerca de duas dezenas organizações terroristas coordenadas pelo IRGC. Isso está rigorosamente de acordo com a doutrina do regime. Analisem o primeiro capítulo do The Little Green Book do Ayatollah Mosavi Khomeini (1985) republicado, em tradução em português, na nota abaixo (1).
Além de tudo o Irã está alinhado ao eixo autocrático - Rússia, China, Coreia do Norte et coetera - na sua guerra atual (na forma de netwar global, uma segunda grande guerra fria que se alimenta de guerras quentes regionais) contra as democracias liberais. Com efeito, o regime iraniano, aceito como integrante do BRICS, continua enviando armas (especialmente drones) para a ditadura russa mover sua guerra de conquista da Ucrânia. Em contrapartida, a Rússia e a China fornecem tecnologia e informações sensíveis para que o Irã localize a destrua bases americanas no Oriente Médio e alvos estratégicos em Israel.
Não há saída se o Irã não for parado. Porque o Irã, por princípio, e por razões políticas e geopolíticas, já é um componente central de uma nova guerra mundial.
Parar o Irã, entretanto, não é possível sem fazer, em escala muito ampliada, o que a Ucrânia está fazendo na sua guerra de defesa contra a Rússia: desabilitar as fontes de circulação e de energia iranianas. Nas circunstâncias atuais, para neutralizar o Irã, em termos militares, seria necessário:
Atacar e destruir as principais estradas, pontes, portos e aeroportos.
Atacar e desabilitar as 10 refinarias de petróleo do Irã (Abadan, Isfahan, Tehran, Bandar Abbas, Arak, Tabriz, Shiraz, Lavan, Kermanshah, Persian Gulf Star).
Atacar e avariar as suas 400 usinas de energia (térmicas, hidreléticas, nuclear e renováveis).
Atacar parte considerável dos cerca de 5 mil poços de extração de petróleo e gás.
É uma saída trágica porque as consequências dessa escalada, como já comentei em outro artigo, serão horríveis para a população iraniana (que ficará paralisada no escuro), para os EUA, para Israel e para o mundo. Do ponto de vista democrático e dos direitos humanos, essa saída não seria aceitável.
Nestas circunstâncias, uma coalizão internacional para tentar conter o Irã seria necessária, não como solução definitiva, mas como um passo possível. Seria um dever, pelo menos das nações democráticas, exigir do Irã pelo menos cinco compromissos (com a adoção verificável de medidas concretas):
1 - O fim do apoio a grupos armados e milícias terroristas, principalmente por meio da Força Quds do Corpo de Guardas da Revolucionária Islâmica (IRGC-QF). Isso significa interromper financiamento, envio de armas (incluindo mísseis, drones e foguetes), treinamento e orientação estratégica para Hezbollah, Houthis, milícias xiitas no Iraque, na Síria e em outros países (incluindo Kata’ib Hezbollah, Asa’ib Ahl al-Haq, Harakat al-Nujaba, Kata’ib Sayyid al-Shuhada, Harakat Ansar Allah al-Awfiya, Kata’ib al-Imam Ali, Fatemiyon, Zainabiyoun e outras), Hamas e Jihad Islâmica.
2 - A paralisação imediata dos ataques à Israel, aos países do Golfo, aos países do Oriente Médio e a qualquer outro país feitos diretamente pelo Estado iraniano ou indiretamente por seus braços terroristas. Isso significa suspender a jihad, na região e no mundo.
3 - A liberação do tráfego nos estreitos de Ormuz e Bab al-Mandab, sem cobrança de pedágio ou taxas de qualquer espécie e sem controle de rotas marítimas por parte do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica ou de seus braços terroristas.
4 - A suspensão do seu programa nuclear para fins bélicos (sempre declarado falsamente para fins pacíficos), aceitando supervisão internacional (da AIEA) sem criar dificuldades sob qualquer pretexto.
5 - O fim das violações dos direitos humanos pelo regime teocrático, incluindo execuções em massa, repressão letal a protestos, discriminação sistêmica contra mulheres, tortura e detenção arbitrária, perseguição a minorias religiosas e étnicas, restrições severas às liberdades de expressão e associação, e criminalização de orientações sexuais.
Só depois disso seria possível suspender as sanções ao Irã (inclusive aquelas que impedem a venda de petróleo), descongelar as dezenas de bilhões de dólares em ativos iranianos congelados e discutir um plano de reconstrução do país.
Esse seria o único caminho para um acordo (provisório) de paz do Irã, não apenas com Israel e os EUA, mas com o mundo. Mas como o Irã não vai aceitar nada disso, a guerra continua. E agora, mesmo que Irã aceitasse, não depende somente mais dele. Porque o Irã se tornou uma das espoletas de uma nova guerra mundial.
Nota
(1) Eis o primeiro capítulo do livro (linkado no texto acima) que coleciona os escritos de Khomeini.
O Islã como uma religião revolucionária
O Islã é a religião daqueles que lutam pela verdade e pela justiça, daqueles que clamam por liberdade e independência. É a escola daqueles que combatem o colonialismo.
Nosso único remédio é derrubar esses sistemas de governo corruptos e corruptores, e depor as gangues traidoras, repressivas e despóticas no poder. Este é o dever dos muçulmanos em todos os países islâmicos; este é o caminho para a vitória de todas as revoluções islâmicas.
Os muçulmanos não têm alternativa, se desejam corrigir o equilíbrio político da sociedade e forçar aqueles no poder a se conformarem às leis e princípios do Islã, a não ser uma jihad armada contra governos profanos.
Embora você possa não ter os meios para impedir a heresia ou combater a corrupção, não se cale. Se lhe baterem na cabeça, proteste! Resignar-se à opressão é mais imoral do que a própria opressão. Argumente, denuncie, oponha-se, grite. Espalhe a verdade: a justiça islâmica não é o que dizem que é. Jihad significa a conquista de todos os territórios não muçulmanos. Tal guerra poderá ser declarada após a formação de um governo islâmico digno desse nome, sob a direção do Imã ou por suas ordens. Será então dever de todo homem adulto e capaz voluntariar-se para esta guerra de conquista, cujo objetivo final é impor a lei corânica de um extremo ao outro da Terra. Mas o mundo inteiro deve compreender que a supremacia universal do Islã é consideravelmente diferente da hegemonia de outros conquistadores. É, portanto, necessário que o governo islâmico seja criado primeiro sob a autoridade do Imã, para que ele possa empreender essa conquista, que será diferente de todas as outras guerras de conquista, que são injustas e tirânicas e desconsideram os princípios morais e civilizatórios do Islã.
Quem libertou nosso país e nosso povo da vergonha do Zoroastrismo, senão o exército vitorioso do Islã?
Há quem não se preocupe em desenvolver um movimento islâmico, mas sim em fazer a peregrinação a Meca com os irmãos muçulmanos, em paz e compreensão. Certamente não era assim na época do Profeta. As orações de sexta-feira eram o meio de mobilizar o povo, de inspirá-lo à batalha. O homem que vai para a guerra diretamente da mesquita teme apenas uma coisa: Alá. Morte, pobreza e falta de moradia não significam nada para ele; um exército de homens assim é um exército vitorioso. A fé e a justiça islâmicas exigem que, no mundo muçulmano, governos anti-islâmicos não tenham permissão para sobreviver. A instalação de um poder público laico equivale a opor-se ativamente ao progresso da ordem islâmica. Qualquer poder não religioso, seja qual for a sua forma, é necessariamente um poder ateu, instrumento de Satanás; é nosso dever opor-nos a ele e lutar contra seus efeitos.
Tal poder satânico só pode gerar corrupção na Terra, o mal supremo que deve ser combatido e erradicado impiedosamente. Para atingir esse objetivo, não temos outro recurso senão derrubar todos os governos que não se baseiam em princípios islâmicos puros e que, portanto, são sistemas administrativos traiçoeiros, corruptos, injustos e tirânicos a seu serviço. Esse não é apenas o nosso dever no Irã, mas também o dever de todos os muçulmanos no mundo, em todos os países muçulmanos: levar a revolução política islâmica à sua vitória final.



