Como nascem as democracias?
Uma tentativa de síntese do pensamento de Augusto de Franco
João Francisco Lobato, Inteligência Democrática (03/07/2026)
Augusto de Franco, a democracia como modo-de-vida e o dilema da escala molecular
Este ensaio é uma tentativa de síntese do pensamento de Augusto de Franco — uma cartografia das suas inovações e dos seus limites, um enfrentamento das críticas que seus posicionamentos suscitam, e uma avaliação do que me parece ser sua contribuição mais significativa ao pensamento democrático. Sua obra sustenta que a democracia não é um monumento herdado do passado, mas o gesto cotidiano de quem decide, aqui e agora, não tratar o outro como inimigo. O que se segue busca mostrar que, embora esse pensamento figure entre as contribuições mais originais ao debate democrático contemporâneo, ele abriga tensões não resolvidas — sobretudo entre a escala molecular de sua proposta e a escala global do problema que diagnostica.
Augusto Cesar Antunes de Franco, nascido no Rio de Janeiro em 1950, construiu uma trajetória que desafia classificações. Entre 1982 e 1993, foi membro da primeira direção nacional do Partido dos Trabalhadores, de onde saiu para jamais se filiar a qualquer partido. Atuou como dirigente da Campanha do Betinho contra a Fome e conselheiro da Comunidade Solidária no governo Fernando Henrique Cardoso. Criou a metodologia DLIS — Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável, aplicada em centenas de municípios brasileiros, experiência que sistematizou em Por que precisamos de DLIS (1999). Fundou a Escola-de-Redes, o projeto Casas da Democracia e a Escola de Agentes Democráticos; foi editor da revista Inteligência Democrática; autor de dezenas de livros, centenas de artigos e cursos. Acima de tudo, Franco é um democrata liberal radical — posição minoritária no Brasil, onde o liberalismo político sempre foi engolido pelo canto da sereia estatista tanto à esquerda quanto à direita. No contexto brasileiro, essa posição assume um caráter conservador não no sentido moral ou reacionário, mas como defesa intransigente de instituições liberais clássicas — separação de poderes, liberdade de expressão, devido processo legal — contra o ímpeto dirigista que, no Brasil, vem de todos os lados.
Sua obra sobre democracia, que culmina no livro Como as democracias nascem (2023), representa um dos intentos mais originais e sistemáticos de um pensador brasileiro de repensar a democracia desde suas fundações — não como um conjunto de regras eleitorais ou um “Estado de Direito”, mas como um modo de vida, uma rede de conversações, um processo de desconstituição de autocracia que nasce e renasce em comunidades políticas. Sua trajetória singular desemboca em uma teoria igualmente original, cujo núcleo examinamos a seguir.
O Núcleo do Pensamento
O ponto de partida de Franco é uma insatisfação profunda com a maneira como a democracia é compreendida na contemporaneidade. Para ele, a pergunta dominante — “como as democracias morrem?”, formulação consagrada por Levitsky e Ziblatt, e também por Runciman (Como a democracia chega ao fim, 2018) — é sintomática de uma paralisia do imaginário democrático. A pergunta que realmente importa, e que ninguém está fazendo, é: como as democracias nascem? Essa inversão carrega uma tese ontológica: a democracia não é um estado fixo, mas um processo contínuo de nascimento e renascimento.
Citando abundantemente a primeira democracia ateniense, Franco argumenta que ela não nasceu de uma vez, num único Big Bang fundador a partir do decreto de Clístenes em 508 a.C. Ela foi nascendo ao longo de aproximadamente meio século, em explosões criativas que ocorriam em comunidades políticas. “A democracia não nasceu de uma vez e pronto”, escreve ele. “Ela nasce ou renasce a cada vez que regulamos conflitos de modo não-guerreiro. Ela nasce ou renasce em Small Bangs, tipo assim buracos brancos ou bombas-gama.” Essa visão processual tem implicações profundas: a democracia pode morrer — mas também pode renascer. E o renascimento não depende de grandes eventos constituintes, mas de comunidades políticas locais que experimentam a liberdade na convivência.
Uma das teses centrais de Franco é que a democracia experiencial surgiu antes da democracia como regime político. A primeira democracia ateniense não começou com uma constituição, mas com pessoas comuns que surgiram em comunidades políticas formadas pela reorganização territorial que dissolveu os clãs aristocráticos e começaram a experimentar novas maneiras de viver juntos. Essa distinção é crucial: a democracia moderna perdeu sua dimensão de prática cotidiana, reduzindo-se a regras do jogo. Mas o jogo em si — a experiência da liberdade na convivência, a regulação pacífica de conflitos, a formação de uma opinião pública democrática a partir da conversação horizontal — foi esquecido. Numa passagem que ecoa essa tensão entre código perdido e redescoberta, Franco observa, em O que é democracia (2016), que as condições sociais que permitem a invenção do regime democrático são anteriores e mais profundas que suas formalizações jurídicas. “A democracia nunca foi mesmo um programa de sabedoria”, afirma Franco. “Foi um programa open de ‘convivedoria’.”
É aqui que entra a fenomenologia da interação, que Franco desenvolve desde a fundação da Escola-de-Redes em 2008. Para ele, a unidade mínima da vida social não é o indivíduo, nem o grupo, nem a instituição — é a interação. Sua tese, amadurecida ao longo de duas décadas, é que a democracia só pode perdurar enquanto os padrões sociais de organização forem mais rede do que hierarquia. Não que redes gerem espontaneamente democracia, mas a democracia não sobrevive em ambientes dominantemente hierárquicos. Essa intuição o levou a investigar o que chama de “a Matrix realmente existente”, expressão que dá subtítulo ao seu livro Hierarquia (2013): a hierarquia não é uma forma de organização entre outras, mas a matriz civilizatória dominante há cinco ou seis milênios, um padrão que se replica automaticamente nas estruturas sociais e nas mentes. Essa formulação deve muito à biologia do conhecimento de Maturana e Varela, e ao ensaio de Maturana sobre a democracia como obra de arte — La democracia es una obra de arte, em que a política é apresentada não como doutrina, mas como invenção contínua da convivência.
Essa fenomenologia da interação exige uma reconceitualização radical do próprio vocabulário sociológico. Em ensaios como Visões heterodoxas sobre educação (2020) e A aprendizagem humana (2026), Franco afasta-se do determinismo biológico — e dá um passo além da autopoiese (autocriação) de Maturana — para propor a alterpoiese: a ‘criação-entre’, a premissa de que a autonomia pessoal só se atinge em associação com outros. O ‘social’ deixa de ser compreendido como uma mera coleção de indivíduos e passa a ser o fenômeno que acontece entre eles (a entreidade) para que se tornem pessoas (a pessoalidade). É nesse espaço interativo que operam dinâmicas como a alostase social (a capacidade de adaptação e mudança de estado da rede) e o alterdidatismo (a livre-aprendizagem como investigação conjunta). Mas a arquitetura teórica de Franco tem um núcleo irredutível: a liberdade reconceitualizada é, afinal, o seu grande tema. Para ele, a liberdade não existe no mundo estritamente biológico; ela é uma exclusividade do mundo social. Liberdade não é a ausência de coerção do indivíduo isolado, mas a capacidade tipicamente humana de ser infiel à sua própria origem (genos), de interromper a reprodução inercial do passado e de desobedecer a leis pregressas para criar novos mundos sociais. Como a liberdade só ocorre na entreidade, ela é o atributo máximo da rede, o motor da aprendizagem e o único fundamento possível para que a democracia nasça.
Em seu artigo As três ondas de democratização e autocratização (2024), Franco refaz a periodização clássica de Samuel Huntington à luz dos dados do V-Dem Institute, dialogando com a análise de Lührmann e Lindberg sobre a terceira onda de autocratização (2019) e com o diagnóstico de Larry Diamond sobre a “recessão democrática” (2015). O diagnóstico é sombrio: em 2025, 74% da população mundial vive em autocracias. Restam apenas 19 países que são simultaneamente democracias plenas, democracias liberais e livres. Entre os 16 países com mais de 100 milhões de habitantes, apenas o Japão é uma democracia plena. Yascha Mounk, em O povo contra a democracia (2019), já apontava a desconsolidação democrática entre os mais jovens mesmo em democracias liberais consolidadas — fenômeno que Franco incorpora ao seu diagnóstico. Um dos conceitos mais instigantes de Franco é o de netwar — guerra em rede. Inspirado nos trabalhos de John Arquilla e David Ronfeldt da RAND Corporation — iniciados em The advent of netwar (1996) e aprofundados em Networks and netwars (2001) —, ele argumenta que a guerra atual não é apenas entre Estados, mas uma guerra social que atravessa fronteiras e divide sociedades nacionais. A resposta democrática só pode ser uma netdemocracy: uma democracia em rede, capaz de enfrentar a guerra antissocial com uma convivência social pazeante. “Uma democracia não-net não pode enfrentar a net-war”, escreve ele.
O livro de 2023 culmina sete anos de investigação com uma tese central que não é mero slogan: a democracia não é a regra do jogo, é o jogo. Para Franco, a democracia moderna, reinventada a partir do século 17 após mais de dois milênios de desaparecimento, conservou as regras do jogo (eleições, separação de poderes, Estado de Direito) mas perdeu o jogo em si — a experiência viva da gestão pacífica de conflitos em comunidades políticas. O livro propõe uma decifração do código original da democracia ateniense, que revela três achados específicos. O primeiro é que os primeiros democratas não eram filósofos em busca de uma ordem oculta do mundo, mas experimentadores da convivência. Se Platão e a tradição filosófica eram adversários da democracia, os sofistas — Protágoras à frente — estavam entre seus primeiros praticantes, ensinando a arte do debate público como exercício da isegoria. A democracia nunca foi um programa de sabedoria: foi um programa aberto de “convivedoria”. O segundo achado é que agentes como Efialtes — uma pessoa comum, “qualquer um do povo”, surgida em alguma comunidade política formada da nova malha territorial — mostram que a democracia não precisa de gênios, mas de cidadãos comuns dispostos a conversar. O terceiro, e talvez o mais relevante para o diagnóstico contemporâneo, é a distinção entre três fontes de formação da vontade política democrática: a liberdade individual de opinar (liberalismo clássico), o reino público da argumentação discursiva (Arendt, em A condição humana e em O que é política?; Habermas em Direito e democracia) e a convergência comunal de desejos para enfrentar um problema comum (Dewey, em The public and its problems, e na coletânea organizada por Franco e Pogrebinschi, Democracia cooperativa: escritos políticos escolhidos de John Dewey, 2008). Com a manipulação das mídias sociais, a erosão do espaço público e a disseminação calculada de desinformação, Franco sustenta que a democracia dependerá cada vez mais de uma transição das duas primeiras fontes para a terceira — a democracia cooperativa.
Essa arquitetura conceitual desemboca na tese mais ambiciosa do livro, amadurecida ao longo de duas décadas de investigação sobre redes: há um condicionamento recíproco entre padrões sociais de organização e modos de regulação de conflitos. A democracia só pode perdurar enquanto os padrões de organização forem mais distribuídos do que centralizados — daí sua fugacidade histórica. Diante da regressão democrática global, a saída proposta não é apenas defender as democracias que temos, mas experimentar novas democracias: articular “poleis paralelas”, zonas livres de populismos onde a democracia como prática possa renascer molecularmente. O conceito remonta ao ensaio de Václav Benda, Parallel Polis (1978), e à experiência dos dissidentes do Leste Europeu, posteriormente desenvolvida por Václav Havel em O poder dos sem-poder. À luz da era digital, Bruce Sterling, em Islands in the net (1988), já entrevia um mundo em que comunidades-rede poderiam funcionar como zonas de autonomia informacional — antecipação ficcional do que Franco hoje chama de netdemocracy. Não basta, adverte Franco, ser conservador das instituições democráticas — é preciso ser inovador. A brecha aberta no muro da cultura patriarcal — expressão que Franco toma emprestada de Maturana e Verden-Zöller, em Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano (2009) — há vinte e cinco séculos precisa ser constantemente reaberta. Em artigos recentes na Revista ID, como O que os agentes democráticos podem fazer (2026) e As comunidades democráticas do futuro (2025), Franco vem refinando a proposta operacional dessas comunidades, enquanto em Atravessando uma nova idade das trevas (2026) aprofunda o diagnóstico sombrio do momento presente.
Essa fenomenologia da interação se desdobra em uma teoria dos agentes democráticos que é, talvez, o aspecto mais prático de sua obra. Inspirado em Jane Jacobs, Franco argumenta que a democracia não precisa de maioria. Precisa de uma minoria ativa, de “fermento na massa”, de pessoas que exercem três funções específicas: resistir a qualquer tirania, seja de esquerda ou de direita; recusar a política como continuação da guerra por outros meios; e fermentar a formação de uma opinião pública democrática, atuando como nós em redes de conversação. Há aqui um diálogo implícito com Robert Dahl e seu conceito de poliarquia (Poliarquia: participação e oposição, 1997): se Dahl pergunta quanta oposição um regime tolera para ser considerado democrático, Franco pergunta quanta iniciativa molecular é necessária para que a democracia nasça — e a resposta não está na competição entre elites, mas na fermentação a partir da base.
Cinco Inovações ao Pensamento Democrático
Franco introduz no debate brasileiro pelo menos cinco contribuições que merecem destaque.
A primeira é a democracia como fenômeno de rede. Antes que a análise de redes se tornasse lugar-comum na ciência política, Franco já aplicava a teoria das redes complexas para entender a dinâmica democrática. Sua tese de que a topologia das redes determina a qualidade da democracia — redes mais distribuídas geram mais espaços de liberdade — dialoga com a teoria dos sistemas complexos e com a biologia do conhecimento de Maturana e Varela. O que distingue sua abordagem é a compreensão de que a estrutura da rede — seu grau de centralização, sua densidade de conexões, sua resiliência a ataques — não é um epifenômeno da política, mas sua infraestrutura profunda. Onde há hierarquia, a informação flui por canais estreitos e controlados; onde há rede, ela se propaga por múltiplos caminhos, tornando o controle centralizado inviável. Essa intuição, que Franco persegue desde Hierarquia: a Matrix realmente existente (2013), encontra eco na teoria dos sistemas adaptativos complexos e na obra de autores como Manuel Castells (Comunicação e poder, 2009) e Yochai Benkler (The wealth of networks, 2006), que também identificam na arquitetura descentralizada das redes digitais um potencial democratizante — embora Franco vá além ao insistir que o padrão-rede precede e condiciona o próprio regime político, e não o contrário. A implicação é forte: sem redes distribuídas, a democracia é estruturalmente instável; com elas, a autocracia encontra resistência difusa em cada nó. Dessa intuição teórica nasceu também uma metodologia: o netweaving — a tecelagem ativa de redes de conversação, sistematizada por Franco na Escola-de-Redes a partir de 2008. Se a hierarquia é a matrix realmente existente, o netweaving é a contraconduta: a prática deliberada de conectar nós, ativar conversações e fazer brotar Small Bangs não por acaso, mas por cultivo metódico. Franco não apenas diagnosticou a rede — ensinou a tecê-la.
A segunda é a teoria dos agentes democráticos. Franco desloca a pergunta de “como defender as instituições” para “como formar pessoas capazes de agir democraticamente”. Essa virada subjetiva é uma das marcas de seu pensamento: a democracia não é mantida por instituições impessoais, mas por pessoas que encarnam os valores democráticos na vida cotidiana. A originalidade aqui está em especificar três funções concretas que qualquer agente democrático deve exercer: resistir a toda forma de tirania, venha de onde vier; recusar a política como continuação da guerra por outros meios; e fermentar a formação de uma opinião pública democrática, atuando como um nó ativo em redes de conversação. Essa tríade funcional se inspira em Jane Jacobs — particularmente em Morte e vida de grandes cidades (1961), onde a autora mostra que a segurança e a vitalidade urbanas não dependem da polícia ou do Estado, mas dos “olhos na rua”, da vigilância difusa exercida por moradores comuns que cuidam do espaço compartilhado. Franco transpõe essa intuição para a política: assim como uma cidade viva não precisa de vigilância centralizada, uma democracia saudável não precisa de líderes carismáticos ou instituições onipotentes — precisa de cidadãos comuns que exerçam, em suas interações diárias, as funções de resistência, recusa e fermentação. O desafio, evidentemente, é como formar esses agentes em escala; mas a teoria ao menos oferece um critério claro para identificá-los.
A terceira são os conceitos de netwar e netdemocracy. Para Franco, o conflito é inerente à convivência humana — uma sociedade sem conflito estaria, a rigor, morta. A fronteira que separa a democracia da autocracia não reside na ausência de tensões, mas no modo de regulá-las. É aqui que sua concepção de guerra, sistematizada no artigo Quinze declarações sobre a guerra (2017), se torna central. A guerra, para o autor, não se resume ao embate armado; ela é um engendramento social cujo objetivo não é destruir inimigos, mas construí-los e mantê-los para justificar a centralização do poder. O verdadeiro alvo da guerra, argumenta Franco, não são as pessoas, mas a rede: trata-se de asfixiar a topologia distribuída para erguer hierarquias. A guerra — seja ela declarada ou travestida de política adversarial polarizada — é a antítese exata da democracia. Enquanto a experiência democrática exige a manutenção do espaço público e o reconhecimento do outro como legítimo, a lógica de guerra exige a redução do outro à condição de inimigo, abolindo a conversação para instaurar o comando.
É a partir dessa premissa que o conceito de guerra em rede (netwar) emerge como uma contribuição original para entender o momento geopolítico atual. Franco mostra como as autocracias modernas utilizam a desinformação, a polarização e a captura das redes sociais para desestabilizar democracias por dentro. Em contrapartida, a netdemocracy seria a resposta pacífica a essa guerra molecular. O que torna o conceito particularmente fértil é sua simetria estratégica: se a autocracia se organiza em rede para atacar (netwar), a democracia precisa se organizar em rede para resistir (netdemocracy). Franco não propõe uma solução institucional clássica — mais regulação, mais Estado, mais fiscalização — mas uma solução topológica: a criação de redes de conversação e cooperação que sejam tão distribuídas quanto as redes de desinformação que as ameaçam. O diálogo com Arquilla e Ronfeldt é explícito: assim como os autores da RAND mostraram que atores não-estatais (terroristas, ativistas, criminosos) podem travar guerras em rede contra Estados hierárquicos, Franco argumenta que a resposta democrática não pode ser um Estado hierárquico tentando impor ordem de cima para baixo — mas uma sociedade civil igualmente capaz de se mobilizar em rede. A guerra é molecular? A paz também precisa ser. O conceito ganha densidade quando confrontado com fenômenos contemporâneos como as Primaveras Árabes (redes pró-democracia usando mídias sociais contra regimes autoritários) e sua posterior captura por forças autocráticas — mostrando que a topologia de rede é condição necessária, mas não suficiente, para a democracia.
A quarta é o conceito de Small Bangs. Contra a megalomania das grandes transformações, Franco aposta nos pequenos começos. Os Small Bangs — explosões de democraticidade que ocorrem quando um grupo de pessoas decide resolver um problema comum sem recorrer a uma autoridade central — são a unidade mínima da mudança democrática. A originalidade aqui está em oferecer uma alternativa tanto ao voluntarismo revolucionário (a crença de que basta uma grande ruptura para instaurar a democracia) quanto ao gradualismo institucional (a crença de que a democracia se aperfeiçoa exclusivamente por reformas vindas de cima). Os Small Bangs operam em uma terceira via: são rupturas moleculares, locais, que não esperam permissão do centro para acontecer. Franco se aproxima aqui da teoria das transições de fase na física dos sistemas complexos: pequenas mudanças locais, quando conectadas, podem produzir mudanças qualitativas no sistema como um todo — sem que nenhuma autoridade central as coordene. O conceito dialoga também com a noção de “prefiguração” na teoria política radical — a ideia de que o movimento que luta por uma sociedade democrática deve ele próprio já ser democrático em sua forma de organização — mas Franco se distancia do ativismo clássico ao insistir que os Small Bangs não precisam ser intencionalmente políticos: podem ocorrer quando vizinhos organizam uma horta comunitária, quando professores criam uma rede de troca de materiais pedagógicos, quando pequenos empresários cooperam para enfrentar um problema logístico. São experimentos de convivência que, sem alarde, vão tecendo o tecido de uma sociedade mais horizontal.
A quinta é a reabilitação de Atenas como fonte viva. Diferentemente da maioria dos teóricos que tratam Atenas como um precedente histórico superado, Franco a vê como uma fonte viva de ensinamentos. A isonomia e a isegoria são para ele as duas tecnologias sociais que permitiram a emergência da política como regulação pacífica de conflitos — e os sofistas, com sua arte de ensinar o debate público e a argumentação contraposta, foram os primeiros a compreender que a isegoria não era apenas um direito, mas uma prática que exigia cidadãos capazes de sustentar uma conversação democrática. Sua leitura da reforma clisteniana como a criação de uma rede de comunidades políticas que quebrou o poder da aristocracia de sangue ilumina não apenas o passado, mas também as possibilidades de reinvenção democrática no presente digital. O que torna essa contribuição particularmente incisiva é a distinção entre duas tradições que Franco recupera: de um lado, a tradição socrático-platônica, hostil à democracia por considerá-la o governo da opinião ignorante; de outro, a tradição sofística, que via no debate público, na argumentação contraposta (dissoi logoi) e no ensino retórico o próprio exercício da cidadania. Franco não esconde sua filiação: a democracia nasce com os sofistas, não com os filósofos. Essa escolha tem implicações contemporâneas diretas: se a democracia é essencialmente conversação, então o inimigo da democracia não é apenas o autoritário de plantão, mas também o tecnocrata que despreza a opinião pública, o especialista que quer substituir o debate político por decisões técnicas, e o moralista que acredita possuir a verdade única. Em um momento histórico em que plataformas digitais poderiam ampliar a conversação democrática, mas frequentemente a degradam em câmaras de eco e desinformação, a recuperação da isegoria como prática, e não apenas como direito formal, é talvez a mais urgente das cinco inovações — pois nos lembra que a democracia não se aperfeiçoa com melhores algoritmos, mas com melhores cidadãos.
Cinco Eixos de Tensão
A obra de Franco, apesar de sua coerência, abriga tensões que merecem exame. Organizo-as em cinco eixos, cada um articulando uma crítica e uma questão em aberto.
Desproporção de escalas: diagnóstico versus esperança. Franco enumera fatores estruturais que tornam a democracia disfuncional: sistemas presidencialistas plenos, países com mais de 100 milhões de habitantes, países parasitados por populismos. O Brasil reúne virtualmente todos esses fatores, e seu diagnóstico global é ainda mais sombrio: mais de dois terços da população mundial vive sob autocracias. Há, portanto, uma desproporção difícil de ignorar entre a escala do problema — global, macropolítica, estrutural — e a escala da solução proposta — local, molecular, comunitária, apoiada em agentes democráticos e Small Bangs. Como evitar que o otimismo da vontade se transforme em mera consolação teórica que nos faz aceitar passivamente a erosão democrática?
Circularidade e formação dos agentes. Se a democracia é definida como o modo de interação onde o outro é aceito como legítimo na convivência, e se essa interação depende de padrões sociais mais distribuídos do que centralizados, estamos diante de uma circularidade: onde ocorre a primeira interação democrática, se o ambiente em que ela precisa surgir é, por definição, autocrático? Como romper o círculo vicioso onde a falta de democracia impede a formação das redes que gerariam a democracia? Em outras palavras: como nasce o primeiro democrata em um ambiente onde o outro é visto apenas como inimigo? Além disso, a teoria dos agentes democráticos pressupõe que existem pessoas dispostas a exercer as três funções de resistir, recusar a guerra e fermentar. Como recrutar, formar e sustentar esses agentes em comunidades onde a polarização, o medo e a desesperança já se enraizaram? A teoria corre o risco de pressupor aquilo que precisa criar.
Risco de instrumentalização política e institucional. Franco é um crítico ferrenho do lulismo e do PT que ajudou a fundar. Em Um líder sem condições morais (2024), classifica Lula como figura “sem integridade moral” para liderar uma democracia, acusando-o de mentir, defender autocracias e oscilar diante da invasão da Ucrânia. Para Franco, o lulismo é um neopopulismo de esquerda que instrumentaliza a democracia eleitoral. O mesmo princípio que o leva a criticar o bolsonarismo — a recusa em aceitar líderes que minam as instituições liberais por dentro — o leva também a apontar as contradições do lulismo. Sua posição é simétrica: não há “mal menor” que justifique silenciar a crítica a um lado para conter o outro. A pergunta que fica, no entanto, é se essa simetria de princípios encontra correspondência na assimetria real das forças políticas — ou se, ao tratar lulismo e bolsonarismo como faces equivalentes de uma mesma moeda populista, Franco não estaria equalizando ameaças de naturezas e intensidades distintas.
O mesmo risco de instrumentalização ronda suas posições institucionais. Franco submete os ministros do STF a um teste de dez perguntas, argumentando que cortes constitucionais não são instâncias apropriadas para fazer julgamentos éticos ou políticos; opõe-se também a qualquer forma de regulação estatal da mídia e da internet, propondo “marketplaces democráticos” de informação como alternativa — proposta instigante, mas pouco desenvolvida. Em cada um desses casos, a crítica é defensável em tese, mas ganha contornos problemáticos no contexto brasileiro atual: no país em que o STF, o Congresso e o Planalto foram alvos dos atos violentos de 8 de janeiro de 2023, e em que a desinformação organizada corrói o espaço público, como distinguir uma crítica democrática ao Judiciário de um ataque autoritário que visa destruí-lo? Como criticar o poder das big techs sem alimentar o discurso de quem quer silenciar a imprensa?
O conflito como condição da política. O conflito como condição da política. Franco é cuidadoso ao distinguir conflito de guerra: para ele, o conflito é inerente à vida social (uma sociedade sem conflito estaria morta), enquanto a guerra é o modo autocrático de regulá-lo, baseado na construção de inimigos para justificar hierarquias. Sua recusa da guerra e sua ênfase na conversação são marcas distintivas de seu pensamento. Mas essa distinção cirúrgica entre conflito e guerra é operacionalizável na prática política real? Tradições que vão de Maquiavel a Chantal Mouffe (Por um modelo agonístico de democracia, 2005) também veem o conflito como essência da política. Mouffe defende o agonismo — o embate entre adversários que se reconhecem como legítimos. Franco certamente concordaria com a premissa, mas a história das conquistas democráticas, do sufrágio universal aos direitos civis, é uma história de confronto e indignação que muitas vezes beirou a confrontação aberta, borrando a linha teórica entre adversário e inimigo. Ao enfatizar a conversação pazeante, Franco não corre o risco de desarmar precisamente aqueles que mais precisam tensionar as estruturas de poder? E quando a guerra social já foi declarada pelo outro lado — quando o oponente não reconhece sua humanidade —, a quantos ainda parece suficiente dizer que a política é a arte de evitá-la?
Geopolítica e a solidão intelectual. Franco é um crítico declarado do que chama de “eixo autocrático” (Irã, Rússia, China, Cuba, Venezuela, Nicarágua). A tese de um eixo autocrático tem o mérito de nomear um fenômeno real — a coordenação crescente entre regimes autoritários no âmbito do BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai. Mas corre o risco de simplificar excessivamente a geopolítica, reduzindo conflitos complexos a uma narrativa binária que pode servir, involuntariamente, aos interesses de potências que se beneficiam dessa polarização. Nesse contexto, Franco defende Israel como a única democracia liberal do Oriente Médio. No entanto, essa posição levanta questões difíceis: será que a defesa de Israel como democracia liberal não ignora as violações sistemáticas de direitos humanos dos palestinos, a ocupação da Cisjordânia, o tratamento diferenciado entre cidadãos judeus e árabes dentro de Israel? O próprio V-Dem Institute, em seu relatório de 2024, rebaixou Israel de democracia liberal para democracia eleitoral após o início da guerra em Gaza. Em última análise, Franco ocupa uma posição solitária: sua coerência de décadas é intelectualmente vigorosa, mas politicamente exposta. Existe espaço para uma terceira via intelectual no Brasil de hoje que não seja apenas um centrismo pragmático, mas uma posição de princípio? E essa solidão é uma virtude (sinal de integridade) ou uma limitação (incapacidade de construir pontes com forças políticas reais)?
O Fermento na Massa
O pensamento de Augusto de Franco nos coloca diante de uma responsabilidade que muitas vezes preferiríamos ignorar: a de que a democracia não é um legado que recebemos, mas uma prática que precisamos reinventar a cada geração. Sua obra nos retira do conforto de esperar que as instituições ou os grandes líderes salvem a democracia e nos coloca diante do espelho de nossas próprias interações cotidianas. Se a democracia é uma rede, cada um de nós é um nó; se ela é uma conversa, cada um de nós é uma voz.
Há, sem dúvida, tensões não resolvidas em seu pensamento. A principal delas é a relação entre a escala micro de sua solução — os Small Bangs, os agentes democráticos, as comunidades políticas — e a escala macro do problema — a terceira onda de autocratização, a netwar, a captura das instituições por populismos autoritários. Franco aposta que o local pode, por contágio e conectividade, tornar-se sistêmico. É uma aposta corajosa, mas cuja verificação empírica ainda está em aberto.
Em última análise, a pergunta que Franco nos deixa é a mesma que ele fez no início de seu livro: como as democracias nascem? Não como morrem — disso já sabemos demais. Sua resposta — que elas nascem em Small Bangs, em comunidades políticas, em redes de conversação — é ao mesmo tempo profundamente esperançosa e terrivelmente exigente. Esperançosa porque nos diz que a democracia pode começar com três pessoas em uma sala. Exigente porque nos diz que, sem essas três pessoas, a democracia não começa. Pois o mundo não se transforma com um decreto final, mas com o milagre da semente que rompe o asfalto da hierarquia quando alguém, enfim, decide se aproximar, enxergar o outro e dizer a primeira palavra.
Referências
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