Entre narrativas e modos de operar
A democracia como prática no presente
I. O vazio das ideologias e a tentação de uma nova narrativa
Há um tipo específico de desconforto que emerge quando alguém começa, ainda que de forma intuitiva, a se afastar das grandes estruturas ideológicas que organizam o mundo contemporâneo, um desconforto que não se traduz imediatamente em clareza, mas, ao contrário, em uma sensação difusa de perda de orientação, como se ao abandonar um sistema explicativo totalizante — seja ele político, moral ou histórico — o indivíduo se visse lançado em um espaço aberto demais, sem contornos suficientemente definidos, sem uma promessa clara de futuro que funcione como guia, e talvez seja justamente essa sensação que explica, ao menos em parte, a força contínua das ideologias (bem como das religiões) no mundo atual, não apenas como instrumentos de interpretação da realidade, mas como dispositivos de segurança existencial.
Essa experiência ganha ainda mais densidade quando colocada em diálogo com o pensamento de Albert Camus, como colocado em minha última coluna semana passada, já que o que o absurdismo propõe não é uma nova narrativa que substitua as anteriores, mas uma recusa radical dessa necessidade de fechamento, uma aceitação madura — e profundamente exigente — de que o mundo não se organiza de acordo com as nossas expectativas e que, portanto, qualquer tentativa de encaixá-lo em uma estrutura totalizante corre o risco de produzir mais distorção do que compreensão, e é nesse ponto que a tensão com o pensamento contemporâneo se torna mais evidente.
Porque, diante dessa sensação de desorientação, uma das respostas mais recorrentes — e talvez mais sedutoras — é a proposta de reconstrução de uma nova narrativa, algo que aparece, por exemplo, na obra de Yuval Harari, quando ele sugere que, diante do colapso das grandes narrativas modernas, especialmente aquelas que organizaram o século XX, seria necessário desenvolver uma nova história compartilhada capaz de orientar a ação coletiva em um mundo cada vez mais complexo [1], marcado por avanços tecnológicos que desafiam nossas categorias tradicionais de entendimento.
Essa proposta, no entanto, carrega um risco que nem sempre é explicitado, porque ao falar em “nova narrativa” como condição para reorganizar a sociedade, abre-se espaço para que essa narrativa assuma, ainda que sob uma nova forma, o mesmo papel que as ideologias desempenharam ao longo do tempo: o de oferecer uma explicação coerente, linear e moralmente estruturada do mundo, o que, em última instância, pode nos conduzir de volta ao mesmo problema que buscamos superar, apenas sob uma nova roupagem.
E é nesse ponto que a crítica implícita presente em autores como Sara Walker se torna particularmente relevante, não porque ela se oponha diretamente à ideia de narrativa, mas porque desloca o eixo da discussão para um nível mais fundamental, ao sugerir que o problema central não está na ausência de histórias que organizem a realidade, mas na forma como sistemas — sejam eles biológicos, sociais ou tecnológicos — operam em ambientes complexos, isto é, na capacidade de construir modelos que permitam ação adaptativa sem depender necessariamente de uma estrutura narrativa fechada que pretenda antecipar ou controlar o futuro [2].
II. Democracia como modo de operar: para além da ideologia
Esse deslocamento, que pode parecer sutil à primeira vista, tem implicações profundas quando trazido para o campo político, porque ele nos permite reconfigurar a própria ideia de democracia, não mais como uma narrativa entre outras — isto é, não como um projeto ideológico que compete com outros projetos igualmente estruturados —, mas como um modo de operar no mundo, uma forma de organizar a convivência a partir de determinadas condições mínimas que não dependem de uma visão específica de futuro, mas da capacidade de sustentar o presente como espaço de construção coletiva.
Essa perspectiva encontra ressonância direta no pensamento de Humberto Maturana, quando ele define a democracia não como um conjunto de princípios abstratos ou como uma promessa teleológica de sociedade, mas como um modo de convivência baseado na aceitação do outro como legítimo outro na relação [3], o que implica uma forma de operar que não se estrutura a partir da negação ou eliminação do diferente, mas da possibilidade de coexistência, mesmo em meio ao dissenso.
No entanto, é precisamente aqui que surge uma dificuldade prática e conceitual relevante, porque ao tentar defender a democracia como um modo de operar — e não como uma ideologia —, abre-se espaço para uma confusão recorrente, na qual essa posição passa a ser interpretada como mais uma narrativa dentro do espectro político, levando a uma crítica frequente de que “não existe posição sem ideologia”, como se toda forma de organização do pensamento estivesse necessariamente aprisionada dentro de um sistema fechado de interpretação.
Essa crítica, embora compreensível dentro da lógica dominante, revela, na verdade, uma limitação do próprio campo, que tende a interpretar qualquer tentativa de saída como uma variação interna do mesmo modelo, incapaz de reconhecer que o que está sendo proposto não é uma nova visão de futuro a ser imposta, mas uma mudança na forma de lidar com o presente, uma mudança que não elimina o conflito, mas altera a maneira como ele é processado, deslocando-o de uma lógica de guerra para uma lógica de convivência operativa.
E é justamente por não se estruturar como uma narrativa fechada que essa proposta enfrenta maior dificuldade de comunicação e adesão, porque ela não oferece a segurança de um destino claro, nem a promessa de um futuro previamente desenhado, mas exige, em contrapartida, um grau maior de responsabilidade e maturidade por parte dos indivíduos e das coletividades, que passam a operar em um ambiente no qual o sentido não é dado, mas construído continuamente, a partir das interações e das escolhas feitas no presente.
III. Futuros, passado e a ampliação do presente
Se essa mudança de perspectiva for levada a sério, então a questão deixa de ser a construção de uma nova narrativa capaz de substituir as anteriores e passa a ser a ampliação da nossa capacidade de operar em um mundo incerto, o que nos leva diretamente a um campo de estudo que tem ganhado relevância nas últimas décadas: os estudos sobre futuros (ou em alguns casos chamado de futurismo), entendido não como a tentativa de prever o futuro de forma precisa, mas como o desenvolvimento de um letramento de futuros, isto é, a capacidade de construir e navegar por múltiplos cenários possíveis.
Essa abordagem, que se distancia da ideia de um futuro único a ser alcançado, permite que indivíduos e sociedades ampliem seu repertório imaginativo, não para fixar um destino, mas para explorar possibilidades, reconhecer sinais emergentes e tomar decisões mais informadas no presente, reduzindo a dependência de narrativas rígidas que prometem segurança ao custo de simplificação.
Ao trabalhar com cenários múltiplos, o futurismo contemporâneo oferece uma alternativa concreta à lógica ideológica, porque permite que diferentes visões de mundo coexistam como hipóteses operativas, e não como verdades absolutas, criando um espaço de experimentação coletiva que se aproxima, em muitos aspectos, daquilo que poderíamos chamar de uma prática democrática ampliada [4].
Essa ampliação, no entanto, não se limita ao futuro, porque envolve também uma reconfiguração do nosso olhar sobre o passado, como bem sugere Augusto de Franco (nesse artigo também para a revista ID) ao argumentar que o passado não é algo fixo, dado e encerrado, mas algo que é continuamente reinterpretado e reconstruído no presente, e que essa disputa sobre o passado é, na verdade, uma disputa sobre o próprio presente e suas possibilidades de ação, de modo que ao revisitar e complexificar as narrativas históricas, deixamos de operar com causalidades simplistas e abrimos espaço para compreender a realidade como um campo mais aberto, menos determinista e, portanto, mais passível de transformação.
Nesse sentido, não se trata apenas de “recontar o passado”, mas de reconhecer que as narrativas que herdamos moldam as possibilidades que enxergamos no presente/futuro, e que ao desestabilizá-las — não no sentido de negá-las, mas de complexificá-las — ampliamos também nossa capacidade de escolha, rompendo, ao menos parcialmente, com o lock-in ideológico que tende a aprisionar o pensamento dentro de estruturas rígidas e auto-referenciais.
Assim, a defesa da democracia deixa de ser a defesa de uma narrativa específica sobre o futuro e passa a ser a afirmação de um conjunto de condições operativas que tornam possível a convivência em meio à incerteza, a pluralidade em meio ao conflito e a construção coletiva em um mundo que não oferece garantias, o que exige, inevitavelmente, uma postura mais próxima daquela sugerida por Camus: uma recusa em aceitar respostas fáceis, uma disposição para sustentar a tensão e, sobretudo, uma responsabilidade ativa diante do presente.
Talvez seja justamente aí que se encontra uma possível saída — não no sentido de solução definitiva, mas como caminho praticável — para o impasse contemporâneo, porque ao abandonar a busca por uma narrativa única que organize o mundo, abrimos espaço para uma forma de atuação mais adaptativa, mais plural e, paradoxalmente, mais exigente, na qual a democracia deixa de ser um ideal abstrato e passa a ser algo que se faz, continuamente, na maneira como escolhemos operar, juntos, diante da complexidade.
Notas
[1] Harari, Yuval Noah. Sapiens; Homo Deus.
[2] Walker, Sara. From Bacteria to AI.
[3] Maturana, Humberto. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano.
[4] Johansen, Bob. Full-Spectrum Thinking: How to Escape Boxes in a Post-Categorical Future




