Narrativas iliberais sobre a guerra do Irã
Há uma guerra: é a guerra do Irã
A narrativa dos jornalistas simpáticos a Lula e ao PT que se apresentam como analistas internacionais chega a ser uma ofensa ao bom-senso e um insulto à inteligência. Mas é pior do que isso: é desonesta. Ela é repetida diariamente nos meios de comunicação, sobretudo nas TVs alinhadas ao governo Lula. Nem todos que replicam tais narrativas iliberais endossam os dez pontos abaixo, mas com certeza concordam com a maioria deles. É mais ou menos assim:
1 - As violações dos direitos humanos e a perseguição às mulheres no Irã é uma característica cultural de um país milenar. Não podem ser condenadas a partir da cultura ocidental. Ou, se condenáveis do nosso ponto de vista, não justificam os ataques bárbaros que os iranianos vêm sofrendo.
2 - O regime teocrático do Irã é também a expressão de sua cultura milenar. Querer que o Irã copie o modelo ocidental de democracia é não entender a complexidade da sociedade iraniana e seu direito soberano de construir seu próprio tipo de regime político.
3 - O Irã é um país pacífico. Só está em guerra porque foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, de modo covarde, pois isso aconteceu enquanto estava empenhado de boa vontade em negociações com esses países. Ah! Mas e a repressão sangrenta aos manifestantes iranianos, que assassinou a sangue frio, no início deste ano, dezenas de milhares de pessoas nas ruas e nas prisões do regime? Ninguém sabe ao certo o número de vítimas. Isso é mais propaganda judaica colonialista e americana imperialista.
4 - O Irã era uma democracia plena. Mas o governo de Mossadegh foi derrubado em 1953 por um golpe militar promovido pela CIA (EUA) e pelo M16 (Reino Unido). Foi aí que começaram os ataques ocidentais ao Irã. Ah! Mas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo (como o V-Dem) atestam que nessa época o Irã era uma autocracia (e que nunca houve democracia por lá). Não importa: essas instituições devem estar mentindo (ou são expressões da visão parcial do Ocidente). Mossadegh era socialista e nacionalista, logo era um democrata, pois defendia a soberania do Irã contra o imperialismo e o colonialismo.
5 - O Hezbollah, o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis, as milícias xiitas no Iraque, na Síria e em outros países do Oriente Médio - grupos jihadistas coordenados pelo Corpo da Guarda da Revolução Islâmica - não são entidades terroristas, mas apenas integrantes do "eixo da resistência" ao colonialismo de Israel e ao imperialismo dos EUA. Ah! Mas os ataques terroristas sangrentos que esses grupos cometeram em Israel e em outros países? Não importa. Se eles não resistissem aos ataques do Ocidente seriam liquidados ou violados em seus legítimos direitos de expressão e organização.
6 - O Irã só quer explorar recursos nucleares para fins pacíficos, de geração de energia e de construção de artefatos médicos. É mentira que seu programa nuclear visava a construção de armas. Ah! Mas e a quase meia tonelada de urânio enriquecido a 60%? Isso é mentira, assim como era mentira que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Ou, se não é mentira, 60% não permitem a construção de uma bomba atômica.
7 - Israel ataca o Líbano e não o Hezbollah. Aliás, sempre atacou o país para colonizá-lo, inclusive quando o Hezbollah não existia. Ah! Mas e a OLP no Líbano não era um grupo terrorista? Não era e sim legítima resistência aos ataques ocidentais. O Hezbollah está apenas se defendendo dos ataques colonialistas e imperialistas.
8 - Israel ataca os palestinos para genocidá-los (na base da limpeza étnica) e não o Hamas. A prova é que o Hamas continua organizado e armado, controlando cerca de 40% da Faixa de Gaza. Israel está mantendo um apartheid dos palestinos para impedir que construam seu próprio Estado. A prova disso é a ocupação crescente da Cisjordânia por colonos judeus supremacistas que cometem crimes diários contra as populações tradicionais da Judeia e da Samaria.
9 - O Irã está vencendo a guerra porque está resistindo bravamente aos ataques criminosos de Israel e dos Estados Unidos. Já era hora de alguém dar um basta nesses agressores.
10 - É admirável o que o Irã está fazendo, enfrentando Trump e Netanyahu. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo dos EUA estava nas mãos dos democratas Clinton, Obama e Biden. Não importa, é tudo a mesma coisa: imperialismo. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo de Israel estava nas mãos dos trabalhistas Rabin, Peres e Barak. Não importa, é tudo a mesma coisa: colonialismo.
Essa é mais ou menos a narrativa do PT. Essa é mais ou menos a narrativa dos governos Lula, que sempre apoiaram a ditadura do Irã, cuja entrada no BRICS foi comemorada pelo PT. E tanto é assim que Lula se aproximou de Ahmadinejad - um notório fraudador de eleições, como aquele seu outro amigo Maduro.
O que esses propagandistas iliberais nos meios de comunicação não enxergam é que o fato de Trump e Netanyahu serem populistas-autoritários muito ruins não torna aceitável (ou justificável) a teocracia assassina e terrorista dos aiatolás iranianos. Como escreveu Masih Alinejad (na foto: jornalista iranana e presidente do WL Congress):
“A República Islâmica é um regime terrorista. Deixou uma coisa brutalmente clara: a vida do seu próprio povo não lhe vale nada. Ela os mata. Depois exige dinheiro de suas famílias para devolver os corpos. E se essas famílias ousarem expressar seu luto, ousarem exigir justiça, são ameaçadas de estupro coletivo e depois presas. Há anos venho dizendo claramente: a República Islâmica não é um governo normal. É uma força de ocupação terrorista que só responderá à força e à pressão decisiva”.
Mesmo assim, parece óbvio que Trump, aliado a Netanyahu, não tinha razões fortes para desfechar a atual contra-ofensiva ao Irã. Errou na forma e no conteúdo. Desvairou. Já quer voltar atrás e não sabe como.
Mas o fato é que - independentemente do presidente americano ser o Belzebu em pessoa e de Bibi ser a encarnação de Asmodai - o Irã não pode continuar financiando e coordenando uma dezena de organizações terroristas ativas (capazes de cometer atentados em qualquer lugar do mundo). O Irã não pode continuar com seu programa de mísseis (com cada vez maior alcance e capacidade de destruição). O Irã não pode retomar seu programa nuclear. E o Irã não pode manter controle completo sobre o Estreito de Ormuz. Finalmente, o Irã não pode se estabelecer como o valentão e o manda-chuva do Oriente Médio (daqui a pouco vai passar cobrar proteção dos países da região, com o IRGC atuando como máfia estatal).
Todavia, não foram os erros crassos de Trump e Bibi que levaram o Irã a fazer tudo isso. Era o plano. Trump e Bibi só deram a chance do Pásdárán (o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica) começar a executá-lo.
Há uma guerra em curso. Não só no Oriente Médio, mas no mundo. É a guerra do Irã, que não começou em 2026, mas já dura quase meio século.
Uma nota sobre o programa Globo News Internacional
A crítica é própria da democracia. Então vamos lá. O Globo News Internacional do último domingo (22/03/2026) ultrapassou todos os limites. Pareceu um Pravda, ou melhor, um Granma. Chamou uma pessoa para comentar a guerra no Líbano que parecia (não estou afirmando que é) uma militante do "eixo da resistência" (a retórica é a mesma) ou uma funcionária de relações públicas do Hezbollah. Depois, entre tantas e descabidas parcialidades, tratou de Cuba, chamando o embargo de bloqueio (no passado, não agora, replicando exatamente a mesma narrativa surrada - e falsa - do regime). Chamou uma historiadora pró-cubana para dizer que está havendo, há muito tempo, uma transição em Cuba, conduzida pelo partido único (mas isso é só um detalhe pouco importante), confundindo solertemente medidas econômicas com abertura política. Nem vou falar da narrativa da guerra do Irã. É como se um país pacífico, enquanto estava negociando com a melhor das boas intenções, tivesse sido covardemente atacado pelos imperialistas e colonialistas. Ou seja, a guerra que a teocracia do Irã trava há décadas, por meios de seus braços terroristas (Hezbollah, Houthis, milícias xiitas no Iraque e na Síria, Jihad Islâmica, Hamas), seria somente uma demonstração de… paz! Sinceramente, isso não é jornalismo. Depois se assustam quando as pessoas, em sua maioria, não confiam mais nos meios de comunicação profissionais.



