Os atuais inimigos das democracias liberais
O eixo autocrático e os EUA sob o governo Trump
Muitas pessoas não gostam de falar disso que vou falar agora porque acham que soa horrível. Dá a impressão de capitulação diante da inexorabilidade de um mundo baseado na força bruta. Mas temos que falar. Porque as alternativas a não considerar seriamente o que estamos aventando neste artigo são piores.
Caindo na real diante das ameaças de Putin e do eixo autocrático e da sanha de Trump em destruir a ordem liberal baseada em regras e em destruir a própria democracia nos EUA e no mundo inteiro, algumas providências urgentes precisam ser tomadas. Não sabemos ainda como cada uma das medidas elencadas abaixo poderá ser implementada sem provocar reações precoces que podem inviabilizá-la, matando a iniciativa no embrião. Mesmo assim é importante levantar esses pontos porque boa parte dos líderes de países democráticos (na Europa, na Ásia e na Oceania), ainda não caiu na real.
Coreia do Sul, Taiwan e Japão devem ter suas próprias armas nucleares. O mesmo vale para Austrália e Nova Zelândia. Sem isso, mais cedo ou mais tarde, esses países serão presas fáceis da China, da Rússia ou de uma coalizão de nações do eixo autocrático.
Estônia, Letônia, Lituânia, Ucrânia, Polônia, Finlândia e Suécia devem ter acesso a armas nucleares (fornecidas pelo Reino Unido e pela França) e uma barreira de proteção da Europa deve ser construída por esses países.
A OTAN deve ser reformulada com a inclusão de uma cláusula democrática. A velha OTAN foi morta pelo governo Trump. Inclusive porque a OTAN original completou sua missão, ligada à primeira guerra fria quando já estamos na segunda. Para enfrentar a Rússia expansionista de Putin e o eixo autocrático em geral - sem os Estados Unidos - é necessário uma nova OTAN, o que, na prática, significa erigir outra organização.
Forças armadas europeias devem ser criadas. Essa força militar deve entrar no território ucraniano e nos países da barreira de proteção da Europa. E deve defender seus territórios, como a Groenlândia, atualmente ameaçada por Trump (um ataque de Trump à Groenlândia deve ser encarado como um ataque não apenas à Dinamarca, mas à Europa como um todo).
Sem abandonar a ONU, deve ser articulada uma organização das nações democráticas unidas, sob a liderança das cerca de trinta e cinco democracias liberais ou plenas que existem hoje no mundo (segundo os critérios do V-Dem combinados com os da The Economist Intelligence Unit) (1).
Caso o governo Trump insista em suas ações para enfraquecer a ordem mundial baseada em regras e para destruir as democracias liberais, enquanto persistir esse governo ou seus sucedâneos que adotem a mesma linha, uma organização das nações democráticas unidas deve encarar os Estados Unidos como inimigos, assim como classificados como inimigos são os países do eixo autocrático (Rússia, Bielorrússia, China, Coreia do Norte, Vietnã, Laos, Índia, Cazaquistão e seus assemelhados do “findomundistão” da Ásia central, Irã e seus braços terroristas e setores de ditaduras tacitamente aliados do Oriente Médio, Angola e outras ditaduras africanas, Cuba, Venezuela e Nicarágua).
Nada do que foi apontado acima significa, é óbvio, abrir guerras contra os EUA e os países do eixo autocrático. Democracias não guerreiam entre si e nem devem tomar a iniciativa de mover guerras contra países autocráticos, a não ser quando são invadidas. E também não pode significar abrir mão da defesa, nem, por outro lado, se converter a um realismo político com raízes autocráticas: os democratas devem fazer tudo isso continuando a ser democratas.
Porque nenhuma dessas providências para ontem (ou anteontem) resolve o problema da democracia. Mesmo que essas medidas sejam tomadas em tempo hábil (o que já é para lá de difícil), as democracias liberais ou plenas não conseguirão se manter porque a netwar (a segunda grande guerra fria em curso) acontece dentro das sociedades democráticas (ou seja, as ameaças não vêm apenas fora, em razão das investidas militares, políticas e econômicas do eixo autocrático e, agora, dos EUA).
O fato é que não existe democracia sem democratas. E o número de agentes democráticos nas democracias mais avançadas não está aumentando e sim diminuindo. Seria necessário, juntamente com as medidas geopolíticas de defesa, a eclosão simultânea de movimentos democráticos de renovação e inovação dentro das sociedades democráticas, que estão vulneráveis em razão do déficit de agentes democráticos - e de comunidades políticas democráticas - no seu interior.
Nota
(1) As democracias liberais somam 29 países, segundo o V-Dem e as democracias plenas 25 países, segundo a The Economist Intelligence Unit - EIU. São consideradas hoje (2025) democracias liberais ou plenas (ou ambas) menos de 35 países (porque há sobreposição): Alemanha, Austrália, Áustria, Barbados, Bélgica, Canadá, Chéquia, Chile, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Islândia, Itália, Jamaica, Japão, Letônia, Luxemburgo, Maurício, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, Reino Unido, Seicheles, Suécia, Suíça, Taiwan e Uruguai. (No ano passado, os EUA ainda eram considerados pelo V-Dem uma democracia liberal, embora não mais uma democracia plena pela EIU e sim uma democracia defeituosa).



