Como escrevi nesta revistsa Inteligência Democrática, no dia 14 de outubro de 2026, portanto, há quase duas semanas do resultado final do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, Pela “lógica”, Lula tende a ser reeleito. E expliquei por quê:
1 - Porque Lula, sendo o incumbente, distribuiria benesses eleitoreiras até às vésperas do pleito - o que ele fez, batendo todos os recordes. Registre-se agora que, no segundo turno, Lula aumentou vantagem sobre Flávio nas 10 cidades que mais dependem do programa Bolsa Família, pago com reajuste, a toque de caixa, antes do dia da votação.
2 - Porque o PT está mais enraizado nas instituições do Estado e da sociedade. Essa hegemonia, construída passo-a-passo durante mais de 30 anos, não seria removida facilmente por um golpe de sorte eleitoral.
3 - Porque a militância petista travou uma guerra suja em todo lugar para deslegitimar o adversário. A campanha Lula, ao constituir um movimento para assediar e molestar pessoas, transformou a polarização política em divisão social. Acrescente-se que essa disputa eleitoral não foi apenas eleitoral e não foi só sobre as qualidades ou defeitos dos candidatos. A maneira como se comportaram as torcidas, sobretudo a do candidato governista, revelou algo mais profundo que vem acontecendo no solo (e no subsolo) da sociedade brasileira: uma divisão que não será superada no curto prazo.
4 - Porque Flávio - não obstante seu crescimento eleitoral supreendente - sempre foi um candidato frágil, sem carisma e sem biografia, que foi originalmente escolhido não para vencer a eleição em 2026 (como teria sido, por exemplo, Tarcísio de Freitas) e sim para impedir que a oposição ao governo Lula saísse das mãos da famiglia Bolsonaro
Afinal, deu a “lógica”. E ela não conspirava a favor da democracia liberal e sim do populismo de esquerda representado pelo lulopetismo.
Entretanto, qualquer resultado de ontem seria ruim do ponto de vista da democracia liberal. Por isso, muitos de nós - democratas liberais - nos abstivemos ou anulamos o voto. Sem construir uma força política de centro democrático, em torno da qual a política possa orbitar, o resultado será ruim novamente em 2030.
Considerando que não há democracia (no sentido liberal ou pleno do termo) sem oposição democrática, cabe ver agora como se comportarão alguns dos que se dizem democratas liberais diante de um quarto governo Lula e de um sexto governo do PT neste século.
A questão é a seguinte. Com quem podemos contar daqui para frente para fazer oposição ao governo reeleito com vistas a construir uma alternativa democrática liberal (não populista)?
A indagação procede porque, no Brasil, surgiu a estranha espécie do “democrata liberal progressista” que, contraditoriamente, fez campanha e votou para manter no governo uma força política de esquerda (que também consideram “progressista”), mesmo sabendo que ela é populista e, como tal, antipluralista e iliberal. Parece claro que Lula e o PT não são democratas liberais, nem mesmo social-democratas. São populistas de esquerda. Se quisermos classificá-los pela ideologia que confessam, são socialistas. Mas daquele tipo para o qual o muro de Berlim ainda não caiu. E tanto é assim que estão erigindo um muro político para dividir a sociedade brasileira em “nós x eles”.
Faz parte, com efeito, de uma ‘estranha espécie’, um democrata liberal que, para apoiar a esquerda populista, se diz “progressista”. Democratas liberais não precisam se dizer “progressistas”. A expressão (democracia liberal) já diz tudo que importa (para a democracia liberal). Isso parece mais um álibi. Ou truque de marketing, para manter audiência da esquerda populista.
Como tuitei no dia 22 de outubro:
Estamos em 2027. Os democratas liberais "progressistas" vão continuar fazendo oposição ao governo Bolsonaro, que acabou em 2022?
É o que tudo indica. Infelizmente. E infelizmente porque - não é demais frisar - os resultados ruins para a democracia liberal de 2026 tendem a se repetir em 2030 se não conseguirmos construir uma força política de centro democrático liberal em torno da qual a política possa orbitar, superando a polarização entre os populismos, ambos atualmente degenerando a política como uma continuação da guerra por outros meios.
Voltando ao princípio
Muitas pessoas que falaram que haveria um risco para a democracia se fulano ou beltrano fosse eleito, nem sabem bem o que é democracia, nem são democratas. Se fossem, não apoiariam Putin. Se fossem, de um lado, não apoiariam Trump e, de outro, não apoiariam o Irã.
Isso significa que, em qualquer circunstância, temos de voltar ao princípio: a alfabetização democrática.
Sem atingir um número crítico de pessoas que entendam o que é a democracia e se disponham a atuar como agentes democráticos na sociedade, não há como sair da situação atual - independentemente de quem fosse o eleito no dia 25 de outubro.
Cada democrata, cada comunidade (ou rede) política democrática, só podem fazer o que podem. Eis a pequena contribuição de nossa parte. Durante 15 meses, a partir do início de 2027, vamos manter uma conversação mensal constante sobre democracia, fora da polarização eleitoral e da divisão “nós contra eles” que ela está causando na sociedade brasileira. É uma iniciativa para perfurar o muro que foi erigido pelo embate entre populismos, muro que atualmente nos separa. O programa é gratuito. Saiba mais clicando neste link.



