Em artigo recente já mostrei que, pela “lógica”, Lula tem mais chances de vencer a eleição. Mas adverti que isso não significa que vai acontecer. A insatisfação com o governo atual - embora difusa e não organizada - é majoritária na sociedade brasileira. É imenso o número de pessoas que não aguentam mais um quarto mandato de Lula e um sexto do PT no governo em menos de três décadas.
Para Lula, vencer a eleição seria uma espécie de canto de cisne, mas pode virar o pio da coruja. A graça que se extingue dará lugar ao agouro que persiste.
Um vitória de Lula nas circunstâncias atuais - com o PT minoritário nos governos e parlamentos municipais e estaduais e no Congresso Nacional - é um perigo considerável para o país. Por métodos democráticos não conseguirá conquistar governabilidade. E o mensalão está cada vez mais difícil de ser reproduzido depois das emendas parlamentares compulsórias.
Lula não pode exilar metade ou mais do Brasil. Não pode evaporar a maioria parlamentar de oposição. Não pode fazer de conta que não existe crise fiscal, agravada pela sua gastança populista na reta final da campanha (que já se aproxima dos 400 bilhões de reais).
Lula fará o quê?
Governará com o STF funcionando como tribunal de exceção (sob a presidência do autoritário e suspeito de corrupção Alexandre de Moraes), anulando as decisões do Congresso que lhe forem desfavoráveis? O PGR Paulo Gonet virará o Grande Inquisidor, inculpando quaisquer dissidentes? A PF atuará como polícia política perseguindo e atemorizando as oposições? Os grandes meios de comunicação serão comprados ou coagidos a se comportar como uma espécie de imprensa oficial de Putin? Os estudantes de elite das universidades federais sairão às ruas para pressionar as instituições a fazer as vontades do eterno governante?
Se fizer isso, haverá instabilidade e o impeachment (não só de ministros da suprema corte e sim do próprio presidente da República) entrará na ordem do dia.
Mas mesmo que não possa ou não consiga fazer nada disso, parece óbvio que também haverá instabilidade. E não será aquela instabilidade própria de uma situação pré-revolucionária (com a que sonham alguns dirigentes do PT, como Zé Dirceu), pois Lula e seu partido não contam com força político-militar para alterar o regime. Lula não poderá mais ser candidato e ninguém mais acreditará que o PT precisa de um sétimo mandato para fazer o que não fez nos seis mandatos anteriores.
E nós - os democratas liberais - faremos o quê?
Seja qual for o resultado do pleito, nós - os democratas liberais - vamos resistir. Se der Lula, continuaremos sendo oposição ao velho governo do PT, que morreu e esqueceu de deitar. Se der Flávio, faremos oposição ao governo bolsonarista. Os dois populismos são iliberais.
Neste momento, com o segundo turno ainda em curso, é direito dos democratas não escolher entre um populista de esquerda e um populista de direita. Se estivessem na Alemanha, não escolheriam entre Die Linke e AfD. Se estivessem na França, não escolheriam entre Mélenchon e Le Pen. No Brasil estão nos 3% que (segundo o último Datafolha) rejeitam os dois candidatos.
É muita gente. São mais de 4 milhões e 760 mil pessoas. Não é o caso, mas só como comparação: se tivéssemos esse número de agentes democráticos na sociedade brasileira, não estaríamos na situação atual.
Epílogo
A despedida em melodia e o aviso que lança uma sombra
O canto do cisne é despedida em melodia; o pio da coruja é aviso que lança uma sombra. O canto do cisne nasce do mito clássico: a ave que, no limiar da morte, emite seu som mais puro e harmônico. É graça final, beleza que se recusa a partir em silêncio. Há nele serenidade, quase uma reconciliação com o fim — o último ato elevado, luminoso mesmo quando a vida se apaga. Associa-se à arte que se consuma e à morte que se deixa revestir de dignidade. Já o pio agourento da coruja pertence à noite e ao desconhecido. É um som seco, repetido, que rasga a escuridão sem melodia nem consolação. Anuncia mau presságio, presença do invisível ou proximidade da morte sem ornamento.




Não tenho dúvida de que o estertor do PT é o pio da coruja.