Quer conduzir a opinião pública?
Monte um instituto de pesquisa de opinião
Já escrevi (ou reproduzi) vários artigos tratando dos institutos de pesquisa de opinião. Veja na nota ao final deste artigo uma lista dos principais.
Nesses artigos mostrei que institutos de pesquisa de opinião viraram players políticos. Quer influenciar o cenário político? Organize um instituto de pesquisa de opinião. É mais fácil do que fundar um partido e pode exercer mais influência. Além disso é mais barato e ainda dá um montão de dinheiro para o esperto empreendedor.
Não sou contrário aos institutos de pesquisa de opinião. Eles prestam um excelente serviço, por exemplo, quando avaliam o desempenho dos governos. E prestam um desserviço à democracia quando fazem pesquisa de intenção de voto com grande antecedência do pleito e quando ainda não se sabe quem serão os candidatos.
Ah! Mas as pesquisas só dão Lula e Flávio? É claro. Não poderia ser diferente. Ainda não foi lançado outro candidato minimamente viável (só apareceram dois nanicos).
É mais ou menos assim, caricaturizando: quem você acha que vai ganhar: o meia-atacante Pelé ou o meia-atacante Walber (do Bangu)? São as pesquisas de intenção de voto com grande antecedência quando só se conhece bem um dos candidatos e os demais são quase desconhecidos.
O fato é que pesquisas de intenção de voto não são uma maneira de conhecer a opinião pública e sim de conduzí-la.
Vou reproduzir abaixo um novo artigo, que Ailton Marques publicou no Facebook no início de fevereiro. É mais um para a lista.
PESQUISAS ELEITORAIS: O GOL CONTRA QUE A SOCIEDADE ACEITOU COMO NORMAL
Ailton Marques, Facebook (04/02/2026)
Em toda eleição, o roteiro se repete. Antes que propostas sejam conhecidas, antes que histórico, preparo ou postura sejam discutidos, números passam a dominar o debate. Pesquisas de intenção de voto surgem como se fossem informação neutra, quase uma prestação de serviço. Mas essa aparência de normalidade esconde um problema grave: elas não apenas observam o processo político - elas interferem nele. Quando são divulgadas, passam a influenciar conversas, decisões, alianças, investimentos de campanha e cobertura da mídia. Elas alteram o comportamento do eleitor e moldam o próprio cenário que dizem apenas medir. Isso não é exceção nem desvio pontual. É um efeito recorrente e previsível.
O mecanismo é simples e fácil de perceber. Ao olhar uma pesquisa, a pergunta do eleitor muda. Em vez de pensar “quem é mais preparado?”, ele passa a pensar “quem tem chance?”. O voto deixa de ser escolha e vira cálculo defensivo. A pessoa não decide mais pelo que considera melhor, mas pelo que parece mais provável. Assim nasce o eleitor maria-vai-com-as-outras, o que segue a maioria não por convicção, mas por medo de errar, de “perder o voto” ou de ficar fora do grupo vencedor.
Esse comportamento não surge do nada. Ele explora algo básico: ninguém gosta de se sentir isolado. Pesquisas organizam e usam esse impulso coletivo e dão a ele uma aparência de lógica. A manada passa a parecer a parte sensata. O erro passa a parecer prudência.
Muitos se defendem dizendo que olham pesquisas “só por curiosidade”. Mas basta observar como as conversas mudam. Candidatos passam a ser chamados de “viáveis” ou “inviáveis”. Bons nomes são descartados cedo, não por falhas reais, mas por posição em gráficos. O voto útil vira desculpa para não assumir responsabilidade. A curiosidade deixa de ser inocente e passa a orientar decisões.
Quem ganha com isso não é o eleitor. São os mesmos de sempre. Pesquisas favorecem quem já tem estrutura, visibilidade, dinheiro e alianças. Elas fecham o jogo cedo, concentram recursos nos nomes que aparecem na frente e dificultam a renovação política. Pessoas qualificadas deixam de se candidatar porque “não têm chance”. O debate empobrece. As opções diminuem. O poder se mantém onde sempre esteve.
Alguns dizem que o problema não são as pesquisas, mas o uso que se faz delas. Essa resposta ignora o óbvio: um instrumento que produz interferência previsível, sempre que é usado da forma como existe na prática, não pode ser tratado como inofensivo. Há exceções, é verdade. Há eleitores que ignoram pesquisas, há eleições em que elas erram, há casos de renovação apesar delas. Mas exceções não anulam o efeito sobre milhões de pessoas. Um mecanismo não deixa de ser problemático só porque não funciona da mesma forma com todos.
Existe ainda uma contradição que quase ninguém questiona. Pesquisas são permitidas durante meses, tratadas como referência legítima, amplamente divulgadas e comentadas. Mas, nos dias imediatamente anteriores à eleição, sua divulgação é proibida. Essa proibição é aceita com naturalidade. Ora, se pesquisas fossem apenas informação neutra, por que seriam silenciadas justamente quando a decisão está mais próxima? A própria existência dessa regra reconhece, ainda que de forma implícita, o poder de interferência que elas exercem.
Temos, então, um paradoxo claro: durante quase todo o processo, pesquisas são apresentadas como orientação válida; na reta final, passam a ser consideradas perigosas. A sociedade aceita isso sem estranhamento, como se não houvesse incoerência. Mas há - e ela é central.
Nada disso é neutro. Nada disso é inevitável. Pesquisas só exercem esse poder porque são aceitas, compartilhadas, comentadas e tratadas como bússola. Ao tolerá-las sem questionamento, o eleitor colabora com um mecanismo que distorce exatamente aquilo que ele diz querer melhorar. Aceitá-las e contribuir com a divugação dela é fazer gol contra. Contra si mesmo, contra o país, contras os próprios filhos – aqui cabe a pergunta: “que país estamos deixando às futuras gerações?”
A solução não precisa ser proibição nem censura. Leis resolvem pouco quando o problema é cultural. Hábitos podem ser mudados. A saída mais sólida, portanto, é a rejeição consciente e natural. Tanto não há problema em pesquisas existirem, que seria mais razoável se elas fossem liberadas, se pudessem ser feitas livremente sem a chancela de órgãos institucionais. Assim, se proliferando, elas naturalmente se banalizariam pelo excesso, deixando de serem centros de decisões políticas. Uma sociedade madura não terceiriza escolhas importantes para rankings e porcentagens.
Democracia exige mais do que votar. Exige atenção, responsabilidade e disposição para não seguir a maioria automaticamente.
E nenhum time vence aceitando gols contra como parte do jogo.
Aliás, o fato de poucas pessoas reagirem a esse texto (sem comentar, sem curtir...) comprova a hipocrisia: por preferirem proteger a própria curiosidade no lugar dos interesses e do futuro do país, as pessoas acham melhor fingir que nem o viram.
Nota
Uma lista de artigos sobre o assunto:
Pesquisas de intenção de voto: o mais poderoso recurso de campanha já inventado. Augusto de Franco, Inteligência Democrática (27/10/2025).
Institutos de pesquisa de opinião. Augusto de Franco, Inteligência Democrática (18/12/2025).
A manipulação da opinião pública: o papel político dos institutos de pesquisa de opinião. Augusto de Franco, Inteligência Democrática (23/12/2025).
Um segredinho de alguns institutos de pesquisa. Roberto Reis, X (26/12/2025).



