Camus nos chama
Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (11/06/2026)
Acabei a empreitada de ler a biografia de Albert Camus. Segui meu amigo Diogo Dutra, que escreveu já alguns artigos sobre o autor nesta revista Inteligência Democrática (ver nota ao final). Estamos eu e ele conversando sobre a possibilidade de um bate-papo ao vivo ou gravado para aprofundar a leitura e publicar.
Aqui não quero fazer uma síntese, apenas dizer como preâmbulo da impressionante pesquisa feita pelo autor, Olivier Todd. São muitos os detalhes trazidos a partir de uma rica pesquisa documental. Muitas cartas e correspondências que deixam um quadro quase completo da figura do artista, sem querer esconder toda a complexidade envolvida e as contradições de uma mente prolífica. Só posso recomendar a leitura mesmo com a advertência para o ‘detalhe’ do tamanho quase colossal. Em tempos de leituras superficiais de mídias sociais é um bom exercício de contrafluxo.
Meu intento é pontuar brevemente, de modo bastante pessoal, o que a vida de um argelino-francês vivendo no período da 2ª Guerra e no pós-guerra na Europa, tal como descrita por seu biógrafo, ressoa nas questões que nos dizem respeito hoje. A questão da Argélia, a convivência de argelinos e franceses em um território sem uma identidade política própria. A militância profissional no jornalismo, com seu tempo de escrita a pressionar o artista que precisava exercer um ofício para sobreviver. A realidade da doença que o afetou por toda a sua vida. O amor pelas mulheres, a começar por sua mãe. A crueza da guerra e da ocupação da França pelos nazistas. O compromisso social exemplificado por sua solidariedade com os presos políticos, sempre exercitando seu direito de petição e sua influência para interceder em favor de perseguidos. O teatro como modo de sair da abstração da escrita. A convivência com intelectuais de esquerda, sua amizade com Sartre e suas divergências profundas que o afastaram de posições mais comprometidas com o totalitarismo.
Todas essas questões perpassam o seu trabalho artístico e povoam seus livros com reflexões não muito convencionais da política e que o biógrafo encontra similaridade em George Orwell, contemporâneo de Camus, mas com quem não conviveu. Segundo Todd, o autor de O Estrangeiro recusava a política sem moral.
Talvez seja simples ou tenha sido simples retratar alguém que não aceitava o engajamento fácil como sendo um aliado dos opressores. Mesmo se recusando a abdicar de sua identidade com a esquerda, Camus foi visto como não confiável para a luta que esse campo político implementou na França e no Mundo. É interessante notar esse aspecto, pois há como que uma força superior a exigir uma subordinação, tudo isso em nome da liberdade. Era essa a recusa do escritor.
Camus não se considerava um filósofo: “não acredito o suficiente na razão para acreditar em um sistema. O que me interessa é saber como devemos nos conduzir”.
Mesmo assim, a atividade da escrita muitas vezes é vista por ele como teorização, em que pese eventualmente se recusar a tratar de um assunto específico. O silêncio aí vira omissão na interpretação dos portadores da história.
A ponderação reflexiva exige um distanciamento que o sujeito engajado como militante político tem dificuldade de ter e de perceber que não tem. “O serviço ao homem exige uma lucidez política contínua, uma fidelidade difícil”.
Não deixo eu de sentir isso como um chamado a um outro tipo de engajamento. Um que tenha como baliza o compromisso com a honestidade intelectual. Camus não via sentido em ignorar fatos apenas para se submeter a um destino histórico. Muita teoria às vezes indica não haver uma teoria só para explicar o mundo e que não precisamos escolher uma para nos guiar. O escritor pode embaralhar criativamente isso de uma forma que torne inteligível a complexidade do mundo. Ser mais um farol do que um guia. Ou pelo menos uma vela no meio da escuridão.
Nota
De Diogo Dutra
De João Francisco Lobato




De fato um trabalho impressionante de Todd. E é quase impossível ler os movimentos da época e não fazer correlação com o que vivemos na atualidade!